Reabilitação do Palácio Santa Clara | Entrevista Responsável de Obra

Reabilitação do Palácio Santa Clara | Entrevista Responsável de Obra

A reabilitação do antigo Hospital da Marinha, no Palácio Santa Clara, é um dos projetos de transformação urbana mais relevantes atualmente em curso em Lisboa. Inserido no coração de Alfama, o conjunto dará lugar ao futuro hotel de cinco estrelas The Standard Lisbon e a um novo núcleo residencial, conjugando património histórico, arquitetura contemporânea e soluções técnicas de elevada complexidade.

À frente da execução da obra está o engenheiro José Gaspar, responsável pela coordenação de um processo exigente, marcado pela reabilitação estrutural de um edifício com mais de dois séculos e pela integração de sistemas modernos num contexto patrimonial sensível. Nesta entrevista, partilha os principais desafios, soluções e aprendizagens deste projeto singular.

Como descreve, em termos gerais, a dimensão e a ambição do projeto do Palácio Santa Clara e do futuro The Standard Lisbon?

José Gaspar: Trata-se de um projeto de grande escala e elevado valor histórico, localizado no coração de Alfama. O conjunto inclui o antigo Hospital da Marinha, onde ficará o The Standard Lisbon, e três edifícios residenciais — Santa Clara I, II e III — num total de 32 apartamentos. É uma intervenção que combina reabilitação profunda de património com nova construção, criando um conjunto contemporâneo sem perder a identidade original.

Quais foram os maiores desafios de engenharia ao trabalhar numa estrutura com origem no século XIX?

José Gaspar: O principal desafio foi lidar com um edifício sujeito a mais de 200 anos de alterações, muitas sem registo técnico. Encontrámos estruturas antigas, patologias, anexos desqualificados e elementos patrimoniais sensíveis. A abordagem passou por preservar o que era relevante, remover construções inadequadas, reforçar zonas frágeis e integrar infraestruturas modernas — como climatização e segurança — sem comprometer o valor histórico do edifício.

Como foi gerida a logística de obra numa zona histórica como Alfama?

José Gaspar: Trabalhámos com acessos limitados, horários controlados, circuitos específicos para materiais e uma coordenação constante com moradores e comércio local. A criação de um arruamento interno foi fundamental para garantir circulação técnica e reduzir o impacto da obra no espaço público.

Como se articula a engenharia com a arquitetura e o interior design do projeto?

José Gaspar: Através de diálogo permanente. A arquitetura e o design têm uma forte identidade, com grande atenção ao detalhe e ao património. A engenharia assegura que essas intenções são executáveis, compatibilizando soluções técnicas com estética, funcionalidade e segurança. É um trabalho exigente, mas muito enriquecedor.

Que soluções estruturais foram mais determinantes neste projeto?

José Gaspar: Destaco a reabilitação estrutural do antigo hospital, com reforços localizados, e a construção de novos edifícios com caves profundas para estacionamento e infraestruturas. Tudo isto foi feito cumprindo normas rigorosas de segurança, acessibilidade e incêndio, adaptadas às limitações de um conjunto histórico. O resultado é um edifício estável, moderno e bem integrado na envolvente.

Que particularidades técnicas distinguem o hotel The Standard Lisbon?

José Gaspar: O hotel aposta numa forte componente experiencial, com spa, piscina e interiores muito personalizados. Isso implicou soluções técnicas exigentes, como reforços estruturais adicionais, sistemas especiais de climatização e elevados requisitos acústicos. A execução dos acabamentos também exige grande precisão, dada a complexidade dos espaços e do design interior.

Que soluções técnicas inovadoras ou pouco comuns em reabilitação a Ecoárea implementou neste projeto?

José Gaspar: A Ecoárea recorreu a modelação digital para compatibilizar estruturas, arquitetura e instalações, reduzindo riscos em obra. Foram aplicados reforços estruturais localizados, demolição seletiva em zonas sensíveis e integração discreta de sistemas modernos — como climatização, incêndio e CCTV — em estruturas antigas. Estas soluções permitiram garantir segurança, eficiência e desempenho moderno, respeitando o património existente.

Qual é a maior lição que esta obra lhe deixa?

José Gaspar: Que reabilitar património é um exercício de equilíbrio entre técnica e respeito pela história. Exige planeamento, equipas multidisciplinares e capacidade de adaptação constante. É uma obra exigente, mas extremamente enriquecedora, que nos marca enquanto profissionais.

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